Ideário arminiano.

Ideário arminiano. Abordagens sobre a teologia clássica de Jacó Armínio: suas similaridades, vertentes, ambivalências e divergências.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ponderações sobre a efetiva liberdade do homem e sua fixidez em um determinado estado.

PONDERAÇÕES SOBRE A EFETIVA LIBERDADE DO HOMEM E SUA FIXIDEZ EM UM DETERMINADO ESTADO

Nas diversas páginas virtuais, ou físicas, ligadas a assuntos teológicos, testemunha-se certo zelo espiritual, assumido e enfatizado por alguns companheiros de fé cristã, que rejeita a ênfase na condição humana de ser livre, ou de ser de escolhas efetivas, explicitada claramente nas Escrituras. Esse zelo, ou excesso de zelo, deixa de levar em consideração que a liberdade relacionada à salvação, conta com o fato primordial -, a graça de Deus, disposta a todos os homens, como destaca o seguinte verso -: “Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens”. (Tito 2:11). Também ignora, que a revelação direcionada à Igreja -: “aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salta para a vida eterna”. ( Jo 4.14) – não se restringe a igreja, pois ela, como evangelizadora, deve estendê-la a toda a criatura. Essa revelação, já está a explicitar a liberdade do homem, entre o aceitar e o rejeitar, realidade que se repete em forma de convite: "E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida. (Apocalipse 22:17).

Pelo caráter de convite -, convite à salvação -, esse chamado se apresenta como condicional, e, implicitamente, apresenta a possibilidade da salvação aberta a quem desejar acolhê-lo. Relembrando que, como no verso anterior, apesar de o último verso citado ser proveniente de uma epístola direcionada à Igreja, não se deve esquecer que a missão designada a Ela (Igreja) é a evangelização, portanto, a boa nova da água disponível a quem deseja beber deve ser propagada a todo o mundo, consequentemente, esse convite não é restrito a um meio chamado Igreja, sendo só ela livre para aceitá-lo ou rejeitá-lo, não, é estendido ao mundo - que a igreja deve evangelizar -, para que a parcela que acolhê-lo se faça integrante do corpo chamado Igreja. O convite não é feito restritamente à Igreja, é feito ao mundo para que, os de suas fileiras, aceitando-o, se faça Igreja.  

Quanto à eternidade da Salvação, pode-se, amparado nas Escrituras, afirmar que há a salvação consumada, aquela alcançada por aqueles que já receberam a coroa, porém, há a salvação por se confirmar, essa salvação a ser confirmada é caracterizada por todos que, regenerados, ainda labutam nessa existência, e como tais, ainda esperam pelo selo final, o selo confirmatório, ou a coroa da vida. Essa realidade pode ser percebida na exposição paulina abaixo:  

“E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo,
E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé;
Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte;
Para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos.
Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus.
Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim,
Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”.
(Fl 3.8-14).

Assim como salvação é parcial, enquanto não for efetivada, enquanto não se configurar como salvação confirmada, a perdição também. Da mesma maneira como o apóstolo prosseguia para alcançar o que ainda não havia alcançado definitivamente, e não considerava que já havia alcançado o que almejava, pode-se encarar o pecador, em sua condição de pecador, um ser perdido, porém, embora rumando para a perdição, deve-se percebê-lo como alguém com possibilidades de ser alvejado pela graça: "Por isso diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá".  (Ef 5. 14) 

Portanto, todo aquele que ainda caminha, que ainda combate o bom combate, deve adotar o pensamento paulino de uma salvação ainda por se consumar, como orientador, procurando manter seus passos ciosos na busca da consumação da esperança escatológica que o incita a prosseguir.

Lailson Castanha

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Considerações sobre o Livro "Teologia Arminiana: Mitos e Realidades" de Roger Olson

CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRO "TEOLOGIA ARMINIANA: MITOS E REALIDADES", DE ROGER OLSON
Thiago Titillo*

Terminei de ler hoje a obra "Teologia Arminiana: Mitos e Realidades" (Editora Reflexão, 2013, 320 p.), do consagrado autor, Roger E. Olson, que se tornou popular no Brasil após a publicação da sua "História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradições e reformas" (Editora Vida).

Tal publicação é oportuna a fim de esclarecer o que verdadeiramente ensina a teologia arminiana, tão comumente caricaturada por seus oponentes calvinistas. O tom conciliatório de Olson ajuda a formar um diálogo saudável.

Roger Olson busca desconstruir 10 mitos comuns acerca do arminianismo através da informação. Ei-los:

1) A Teologia Arminiana é oposta à Teologia reformada-calvinista;
2) É possível mesclar calvinismo e arminianismo;
3) O arminianismo não é uma opção evangélica ortodoxa;
4) O arminianismo tem como princípio fundamental o livre-arbítrio;
5) O arminianismo nega a soberania de Deus;
6) O arminianismo é uma teologia antropocêntrica;
7) O arminianismo não é uma Teologia da Graça;
8 ) O arminianismo nega a predestinação;
9) O arminianismo nega a justificação pela graça através da fé somente;
10) Todos os arminianos creem na teoria governamental da expiação (Hugo Grócio).

O primeiro mito é desconstruído à medida que é demonstrado que Armínio era reformado em sua teologia, divergindo apenas da ideia de que Deus predestinou a queda (o mal e o pecado) e elegeu incondicionalmente uma parcela da humanidade para a salvação, ignorando os demais. Armínio enfatizou a glória de Deus e usou a Teologia da Aliança (ou Federal). Entre os pontos comuns entre a teologia arminiana e calvinista, encontramos:

1) a depravação total; 2) a necessidade absoluta da graça; 3) a providência divina (com a diferença de não ser exaustiva e não ter relação positiva com o mal); 4) a inspiração das Escrituras; 5) a cristologia; 6) a Trindade; 7) a justificação; etc. Pode-se afirmar que uma teologia que afirma tais pontos esteja em total oposição ao calvinismo reformado? É claro que há pontos irreconciliáveis, mas no geral, tais teologias não são opostas (mesmo que não sejam complementares), pelo contrário, guardam muitas semelhanças. Afirmar, como fazem a maioria dos apologistas calvinistas que o arminianismo é uma heresia, e compará-lo ao semipelagianismo é, no mínimo, desonestidade intelectual!

O segundo mito nega a possibilidade de uma teologia "calminiana", justamente por ser impossível afirmar uma regeneração monergista e sinergista ao mesmo tempo. É verdade que tanto os arminianos quanto os calvinistas ensinam a predestinação e o livre-arbítrio (contrário ao conceito popular de que o calvinismo ensina a predestinação e nega o livre-arbítrio, e o arminianismo ensina o livre-arbítrio e nega a predestinação), mas interpretam estes dois conceitos de maneira diferente. Os calvinistas ensinam a predestinação absoluta juntamente com a ideia de livre-arbítrio compatibilista (uma forma de coaduná-lo com o determinismo divino), enquanto os arminianos ensinam a predestinação (no sentido de eleição soteriológica) conforme a presciência divina juntamente com a ideia de arbítrio liberto (pela graça preveniente), tornando-se livre-arbítrio libertário (capacidade de escolha contrária).

O terceiro mito é também desvendado. Armínio jamais negou os pontos basilares da fé cristã ortodoxa. Que alguns arminianos posteriores tenham se descambado para o semipelagianismo (ou mesmo o pelagianismo), como o remonstrante Limborch, e posteriormente, o avivalista Finney, isso não se nega. Mas tais não representam o arminianismo clássico lançado por Armínio, seguido por Episcópio, recuperado por John Wesley e seguido pela maioria dos metodistas posteriores. Igualmente injusta é a ideia de que o arminianismo conduz ao deísmo e à teologia liberal. Se isso aconteceu com arminianos, não se pode esquecer que Schleiemarcher, pai da teologia liberal, era calvinista. Quanto à acusação de que Armínio fosse sociniano quanto à sua cristologia, basta ler suas obras para ver que ele estava de acordo com a definição da Calcedônia (451).

Quanto ao quarto mito, os próprios textos de Armínio dão conta de que o princípio fundamental de sua teologia não é o livre-arbítrio humano. Este é apenas uma consequência do fundamento de sua teologia, a saber, o caráter justo e amável de Deus, que exige uma resposta livre do ser humano a fim de que haja um relacionamento genuíno entre criatura e Criador.

Sobre o quinto mito, a teologia de Armínio não nega a soberania divina, nega apenas que tal soberania seja exaustiva em relação a todos os acontecimentos da história, incluindo o mal e a Queda (pecado), pois desta forma Deus, inevitavelmente, seria autor do pecado. Ao determinar criar seres livres, a possibilidade do mal torna-se real, mas Deus não decreta o mal ativamente, de maneira que nesse caso o decreto deve ser entendido apenas como permissivo. É claro que Deus tem todo o poder para operar sua vontade antecedente (perfeita) em toda sua criação, mas por valorizar um relacionamento genuíno com sua criação, Ele não usa seu poder coercitivo. Um Imperador não deve ser considerado soberano somente porque não determina exaustivamente as decisões de seus súditos? Claro que toda analogia é imperfeita. Mas pensemos noutra: imagine um navio com destino a um determinado porto. As pessoas dentro do navio gozam de certa liberdade, mas nada que possa impedir o navio de chegar ao seu destino. Assim é a história governada por Deus: chegará ao seu clímax final. Como diz Olson, Deus é soberano sobre sua soberania, ou seja, Ele pode se limitar seu poder sem se tornar um "deus menor". Nas palavras de Tozer, "um Deus soberano não teme conceder liberdade à sua criação".

Quanto ao sexto mito, a verdade é que o arminianismo confessa a completa e total depravação do homem, de maneira que sua liberdade para escolher o bem espiritual está totalmente arruinada. A vontade humana é totalmente escravizada pelo pecado. As acusações de semipelagianismo (mera fraqueza que retém ainda algum poder na vontade) é uma tremenda inverdade. Pode ser que tal acusação se baseie na leitura de Limborch, desertor do arminianismo clássico. Mas dificilmente os calvinistas que leram Limborch não teriam acesso a Armínio. Tal acusação é mais provavelmente fruto de uma campanha que busca distorcer deliberadamente o pensamento do teólogo holandês, como já acontecia em sua época, quando Francisco Gomaro tomou à frente no projeto de caluniá-lo! A verdade é que a teologia arminiana não é otimista quanto ao homem, mas como o próprio Olson diz, é uma teologia otimista em relação à graça.

Sétimo mito: dizer que a Teologia Arminiana não é uma Teologia da Graça só por não afirmar a graça irresistível é querer monopolizar o significado de graça. Para Armínio (e os arminianos clássicos), a salvação do homem depende necessariamente da graça de Deus. O homem é incapaz de salvar-se sem o auxílio da graça. A graça preveniente (graça que vem antes) é necessária para libertar a vontade e capacitar o homem a responder à oferta salvífica do Evangelho. Em certo sentido, o primeiro raiar dessa graça é irresistível, pois todos a recebem (para alguns arminianos todos a recebem automaticamente em função da expiação de Cristo - Wesley -; para outros tal graça só é recebida na medida em que o pecador tem contato com a Palavra proclamada, o que exclui aqueles que não tiveram contato com o Evangelho - Episcópio, p. 216). Num segundo momento essa graça torna-se resistível, pois com o livre-arbítrio liberto, o homem pode aceitá-la pela fé (que é dom de Deus, logo não se trata de uma obra meritória), ou rejeitá-la. Assim, em toda a salvação, a glória é somente de Deus, pois mesmo o ato de aceitar tal graça não se trata de uma aceitação ativa, mas passiva, um simples deixar sem resistência à atuação de Deus.

Oitavo mito: A teologia de Armínio e de seus seguidores não nega a predestinação, embora a entende de forma diferente do calvinismo. Isso também se aplica aos calvinistas: eles não negam o livre-arbítrio (embora alguns se sintam desconfortáveis com o termo), mas interpretam-no de forma diferente. Armínio, inclusive, defendeu uma predestinação que mais honra mais a pessoa de Jesus Cristo do que a predestinação calvinista. Na ordem dos decretos conforme a teologia calvinista, o decreto primário de Deus (ordem lógica, não cronológica) é salvar uns e condenar outros (supralapsarianismo), ou: 1º) criar; 2º) permitir a Queda; 3º) eleger uns, ignorar o restante (todavia, mesmo que a reprovação seja vista apenas como “ignorar” – decreto de omissão -, isso não diminui a dupla-predestinação, pois a eleição incondicional exige uma reprovação incondicional). Para Armínio, o primeiro decreto e mais importante decreto divino foi estabelecer Jesus Cristo como salvador dos pecadores. Na ordem dos decretos conforme o calvinismo “Jesus Cristo parece aparecer como um decreto posterior ao decreto primário de Deus de salvar alguns e condenar outros” (p. 237). O segundo decreto conforme Armínio é aquele que Deus decretou receber em favor os que se arrependem e creem em Cristo. Nada mais cristocêntrico. Quanto à eleição, Armínio entendeu-a condicional à fé, sendo que Deus elegeu aqueles que Ele anteviu que não rejeitariam sua graça (preveniente e cooperante). Negou a predestinação para o pecado e o mal, mas não a predestinação.

Nono mito: Àqueles que negam a Armínio a justificação pela graça somente através da fé deveriam ler urgentemente suas obras. Ele não apenas defende que a justificação se dá através da fé, mas afirma com os demais reformadores que a justiça de Cristo é imputada sobre o crente quando este confia em Jesus para a salvação. Poucos arminianos creem que a própria fé é imputada como justiça (a fé como base da justificação, e não a justiça de Cristo), de maneira que a fé possa ser entendida como resposta humana e base para a justificação, tornando a justificação fruto de obra humana (aí sim, trata-se de um sério desvio teológico!). Mas desvios ocorrem dentro do calvinismo, ou todos os calvinistas concordam em suas doutrinas (supralapsários x infralapsários; 5 pontos x 4 pontos; etc.)? Há inclusives calvinistas, como o Sproul Jr. que afirmam ser Deus o autor do pecado, enquanto muitos negam, embora tal negação esbarre na lógica! Há ainda arminianos que creem que por causa (instrumental, e não eficaz) da fé, o crente é considerado justo (sem pecado), mas tal justiça não é a justiça de Cristo imputada (tal concepção não deve ser vista como um sério desvio, mas uma interpretação, talvez, equivocada). Contudo, Armínio e boa parte dos seus seguidores defendem que a justiça de Cristo é imputada ao crente pela fé em Jesus. Essa também é a opinião de Olson, e a minha!

Décimo mito: Todo arminiano aceita a teoria de Grócio sobre a expiação. Armínio e Wesley não a defenderam. Pelo contrário, criam na substituição penal. Trata-se de mais um embuste da campanha difamatória!

Apenas um adendo: Preocupou-me a opinião do Olson, um teólogo conservador, acerca do teísmo aberto. Ele pareceu flertar com essa teologia: "Eu considero o teísmo aberto uma opção evangélica legítima e arminiana, mesmo que eu AINDA não a tenha adotado como minha própria perspectiva" (nota de rodapé 65, pp. 256-257). O advérbio de tempo "ainda" causou-me estranheza. Na p. 258, ele diz: "Por sentir o peso da crítica do teísmo aberto feita ao arminianismo clássico, eu permaneço um arminiano clássico esperando ajudar a aliviar o paradoxo da filosofia" (nota de rodapé 67).

Na verdade, o "peso da crítica do teísmo aberto feita ao arminianismo clássico" está longe de ser pesado! O argumento é que se conhece exaustivamente o futuro (presciência; onisciência) todas as ações livres que acontecerão, de fato, acontecerão da forma como Deus viu, não podendo acontecer de forma contrária, o que na perspectiva do teísmo aberto, faz com que tais decisões não sejam livres. Mas será que essa lógica é irresistível? Não penso assim. O fato de Deus conhecer infalivelmente que X fará A e não B, não indica que Deus assim determinou, mas que Deus conheceu eternamente a ação livre de X. Agostinho já havia refutado tal ideia em seu diálogo com Evódio ("O livre-arbítrio"). Um dos maiores filósofos cristãos da atualidade, Alvin Plantinga, também não vê nenhuma contradição entre o livre-arbítrio libertário e a onisciência absoluta de Deus.

*Thiago Titillo 
- Licenciado em Letras (Português-Literatura) pela Universidade Estácio de Sá;
- Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Betel, Rio de Janeiro;
- Pós-Graduando (lato sensu) em Teologia Bíblica e Sistemática-Pastoral pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro.

- Professor de Português e Literatura (Ensino Médio) da rede estadual de ensino (RJ);
- Professor de Teologia Sistemática, Teologia do Novo Testamento, História da Igreja e Português da Faculdade de Teologia Wittenberg;
- Professor de Ensino Religioso (Ensino Fundamental II) do Colégio Souza Marques.

- Pastor Batista (Convenção Batista Brasileira);
- Diretor de Educação Religiosa da Primeira Igreja Batista em Botafogo, Rio de Janeiro.
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OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades; tradução Pr.Wellington Carvalho Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Exortação à vivência dos princípios auxiliadores para a confirmação da salvação, na carta aos Hebreus

Exortação à vivência dos princípios auxiliadores para a confirmação da salvação, na carta aos Hebreus

O livro de Hebreus é um dos livros intrigantes das Escrituras. É um livro que nos tira de nossa quietude intelectual, do conforto da fé irrefletida e nos leva ao campo inquietante da reflexão. Por exemplo, em um de seus trechos mais conhecido, em sua definição de fé, o leitor é tirado do conforto das fáceis definições e é colocado diante do desafio da reflexão: a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem (Hb 11.1). Podemos perguntar: como é possível um firme fundamento baseado na esperança, e, como é possível ser prova de coisas que não se vêem? - Se não se vêem como prová-las? Porém, esse rico livro , não apenas nos tira do conforto da fácil leitura, elimina o conforto da fé passiva, acomodada, impossibilitando o leitor, de se apegar, ou a continuar se apegando a ideia da graça barata.

Depois de explanar sobre o ministério de Jesus, de anunciador da Palavra de Deus e de sua grandeza , da firmeza e rigor que palavra anunciada imprime sobre os seus transgressores - o autor coloca o leitor diante de uma inquietante e exortativa indagação: Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram? (Hb 2.3). Continuando sua exortação o escritor da epístola, relembra aos destinatários, os ricos meios usados por Deus para confirmar e testificar a salvação. Narra o privilegio vivenciado pela igreja que teve Cristo como anunciador das Boas Novas, e, além de anunciador, um sofredor – que fez de seu sofrimento, o meio para livrar o homem da escravidão do pecado. Após a exposição de tantos detalhes, o escritor, apresenta outra exortação - considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão (Hb 3.1) - “o qual é fiel ao que o constituiu” (Hb 3.2). Essa admoestação coloca o leitor diante de um imperativo: considerai a Jesus Cristo. Pode-se afirmar que qualquer crente tanto os que apóstolo pretendeu enviar a carta, como os leitores posteriores,  que se depararam com essa asseveração foram levados a atentarem ao exemplo de fidelidade de Cristo, que só manterá como sua casa “se tão somente conservarem firme a confiança e a glória da esperança até ao fim”. (Hb 3.6). Perceba que aqui entra um condicional se”, ou seja, só serão considerados casa de Cristo se conservarem-se firmes, confiante e esperançosos, e, até o fim. 

Apesar de as exortações se tornarem duras, elas não se encerram nessa frase, pelo contrário, o escritor se preocupa em prolongá-la:

Portanto, como diz o Espírito Santo: Se ouvirdes hoje a sua voz,
Não endureçais os vossos corações, como na provocação, no dia da tentação no deserto. (Hb 3.7-8)

Depois de relembrar os erros dos judeus de outrora, que tentaram a Deus com a dureza de seus corações. Citando os Salmos 95.7, o escritor reforça a advertência:

Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo.
Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado;
Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim. (Hb 3.12-14)

Nesse momento, a preocupação da epístola, é alertar para o perigo de os crentes, a semelhança dos antigos, se endurecerem pelo engano do pecado, perdendo a firmeza e o princípio da confiança que adquiriram. Podemos notar intensidade da preocupação que vivencia o escritor sobre a real possibilidade da perda da salvação dos crentes que receberão sua carta, na repetição de sua exortação:

Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações, como na provocação. (Hb 3.15) – e continua sua reflexão exortativa com a seguinte argumentação: E vemos que não puderam entrar por causa da sua incredulidade. (Hb 3.19)

E não para:

Temamos, pois, que, porventura, deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça que algum de vós fica para trás. (Hb 4.1)

Mantendo a sua linha argumentativa, afirma:

Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno. (Hb 4.16)

A ênfase em destaque – chegar com confiança ao trono da Graça -, depois de tantas exortações, não deveria ser diferente, pois, segundo o próprio escritor, nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança. Pode-se afirmar, que chegar com confiança é um dos fatores que possibilitam o crente a alcançar misericórdia e achar graça para ser ajudado em tempo oportuno; relembrando que – os crentes só se mantém como casa de Cristo “se tão somente” conservarem “firme a confiança e a glória da esperança até ao fim”. (Hb 3.6)

É tão fundamental, para os que almejam a confirmação da salvação, se fixarem na fidelidade, na confiança - na manutenção do apego a promessa e da fé, que escritor faz questão de revelar que o abandono desses exercícios espirituais impossibilitará outra renovação para arrependimento. (Hb 6.4-6) Em outro momento afirma: Mas o justo viverá pela fé; E, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele. (Hb 10.38) E não é a toa que essa carta faz um elogio a fé e aos Heróis da fé, que, embora viveram distantes da promessa, não abriram mão de sua fé. Também, não é sem propósito que na epístola, esses exercícios espirituais são exaltados, pois, se a carta enfatiza o apego a promessa, a esperança, a fidelidade e a confiança como condições para tornar os crentes participantes de Cristo, falar da fé é fundamental, pois:

“a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem”. (Hb 11.1).

A fé é o fundamento da Esperança, e é através dela que a esperança nas promessas se transforma em convicção.

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam”. (Hb 11.6) Portanto, é necessário que os crentes zelem por sua fé, pois, “o justo viverá pela fé; E, se ele recuar,” Deus “não tem prazer nele”. (Hb 13.38)

Enfim, falamos que o livro de aos Hebreus nos tira da comodidade intelectual e espiritual, seus textos exigem de nós um pouco mais de reflexão, exige a reobservação de nossos conceitos e ideias há muito tempo enraizadas em nosso intelecto, como, e por exemplo, a questão da nulidade do homem em relação a sua salvação.

Muitos defendem a passividade do homem em relação a sua salvação, defendem, se valendo da interpretação soteriológica monergista das Escrituras, que cabe apenas a Deus qualquer medida em favor da salvação do homem, e por consequência, o homem nada faz de positivo. Os engenheiros desse sistema soteriológico, preocupados em eliminar o que, entendem, seria, um possível mérito humano -, a possibilidade de o homem responder a alguns estímulos de Deus -, apresentam um ser esvaziado que age de acordo e com os comandos absolutos de seu criador, sem nenhuma resposta que não seja, a própria resposta de Deus dominante no homem – o que seria um solilóquio. Ávidos por defender o sistema monergista, preferem ignorar a riqueza das exortações, como as registradas na epístola aos Hebreus, que revela ao crente que é necessário que ele aja em favor da salvação, que há que se tomar atitudes em prol da efetivação da salvação, que necessitam cooperarem com os meios da graça, enfim, que não há salvação monergista, já que a salvação é uma dádiva de Deus, que exige do homem zelo e esforço para mantê-la.

Negar que homem, com o auxílio da graça, participa e deve participar ativamente na efetivação de sua salvação, é negar as instruções da epístola aos Hebreus, e variados textos bíblicos que exortam os crentes a confirmarem sua vocação, perseverarem na doutrina e preservarem a sua fé além de desconsiderar a exposição bíblica sobre responsabilidade do homem em relação a sua salvação. Portanto, cabe a nós, fazermos uma leitura mais atenta das Escrituras, a fim de desfazermos esses equívocos interpretativos que tendem a anunciar, implicitamente, um evangelho que não exige do cristão os esforços que tanto solicitou aos crentes judeus que estavam sob o seu cuidado, o zeloso escritor da epístola aos Hebreus.  

Lailson Castanha

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O SENTIDO DA LIBERDADE

O SENTIDO DA LIBERDADE
Emmanuel Mounier

Nunca será tarde demais para pensar sobre o sentido da liberdade.

Conheceis de certo a velhíssima história de Adão e Eva. Mesmo se não acreditais nisso, tomai a substância dela. O seu sentido é que Deus teria muito bem podido criar um ser maravilhoso, todo ele montado como um belo autômato. Mas, sendo Deus Liberdade ao mesmo tempo que Sabedoria, um ser feito à sua imagem não devia apenas ser constituído de forma a causar admiração às crianças, mas poder escolher livremente ser ou não ser essa maravilha. A árvore perigosa fora tomada como teste dessa opção  era, diz a Escritura, a árvore da Ciência do Bem e do Mal: traz, sem dúvida, esse nome a fim de indicar que a mesma seiva alimenta a um tempo o Bem e o Mal, que é temerário demais querer assimilar um ou outro, sumariamente, a qualquer uma das civilizações da história. E essa árvore, final de contas, crescia em uma espécie de Paraíso. Não é, portanto, amaldiçoada a procura do saber e do poder.

Eram estes de certo proibidos até que o homem, no seu crescimento livre, amadurecesse bastante para deles não fazer uso mortal.

Ele não soube esperar, segundo a narração sagrada: a sua impaciência teve um desfecho infeliz.

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MOUNIER, Emmanuel. Sombras de medo sobre o século XX; tradução de Salústio de Figueiredo. Rio de Janeiro: AGIR, 1958.
Foto: Emmanuel Mounier (1905 - 1950), filósofo personalista francês.


sábado, 9 de março de 2013

A simples história da salvação.


A simples história da salvação.
Dr. Kevin Mannoia 


"O mesmo amor que nos criou, agora, é a motivação de nos buscar (...)".
"Salvação não começa com o nosso pecado. Salvação começa na criação das nossas vidas na imagem de Deus".(Dr. Kevin Mannoia )
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Reflexão transmitida pelo Dr. Kevin Mannoia por ocasião do lançamento do Livro Vida Magistral e Encontro Especial da Fraternidade Wesleyana de Santidade para pastores e líderes, ocorrido na  Igreja Metodista Wesleyana de Vila Nivi.


Se deseja conhecer o trabalho do Rev. Kevin Mannoia acesse: http://www.kevinmannoia.com/

Se deseja conhecer a Igreja Metodista Livre do Brasil acesse:

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Considerações sobre a graça preveniente.


Considerações sobre a graça preveniente.
À Fabrício Zamboni, que me desafiou a refletir sobre o tema.

O conceito Graça, em sua maneira simples, é adotado por todas as teologias consideradas cristãs, no sentido clássico do cristianismo. Grosso modo, graça, é a ação benevolente de Deus, que permite ao homem se interessar, buscar e ter acesso às realidades que estão acima de sua natureza caída. Esse ato benévolo é o ato que o capacita a se movimentar em direção a Deus e a sua vontade; sem a graça, jamais o homem conheceria a Deus, e por consequência, jamais se interessaria em ser agradável a Ele.

Apesar da unidade entre as linhas teológicas em relação ao conceito geral da graça, algumas distinções, que buscaram ampliar o entendimento da graça, não alcançaram a mesma unidade que o conceito genérico alcançou. Se a ideia genérica da graça é uma ideia unânime entre as teologias cristãs, o conceito extensivo, graça preveniente, não goza a mesma concordância.

Admitida desde Agostinho, citada explicitamente por Anselmo e Tomás de Aquino, e abordada enfaticamente por Jacobus Arminius e John Wesley e harmonicamente, o conceito graça preveniente não nutre integralmente a mesma interpretação entre os calvinistas. Não adotado explicitamente por essa vertente teológica, a chamada graça preveniente, entre os calvinistas, é admitida apenas como ato benévolo de Deus direcionado em favor dos eleitos. Pode ser considerada preveniente, como o próprio termo indica, apenas, pelo fato de existir em favor do homem, antes de qualquer ação deste, engendrando nele o desejo de praticar o bem, de romper com sua natureza caída, enfim, de ser a agradável a Deus. Esse desejo elevado só é manifesto no homem, pela vontade direta de Deus, infundindo nesse homem, seu eleito, um desejo irresistível e eficaz. A graça de Deus, segundo o calvinismo é sempre diretamente eficaz, ou seja, se Deus deseja que alguns homens cheguem ao conhecimento da verdade, e através dela sejam salvos, por consequência, esses, de fato serão salvos, pois serão alcançados por Deus, antes de qualquer particular ato ou desejo humano, levando-os a crer e se arrependerem.  

Entre as teologias arminiana e wesleyana há maior harmonia interpretativa. Falando sobre a graça, Jacobus Arminius se apropria do termo “prévio” já usado por Anselmo e Tomás, indicando certa nuança da graça geral, ele afirma: “Essa graça precede, acompanha e segue; excita, assiste, opera para que queiramos o bem, e colabora para que não queiramos em vão. Depois continua: Essa graça dá início a salvação, é o que promove, aperfeiçoa e consuma.[1] Em outro Momento, Arminius afirma:

Mas, que a especial concorrência ou assistência da graça, que é também chamado de graça "cooperante e de acompanhante" não difere em espécie, nem em eficácia dessa graça excitante, que é chamado de preveniente e operante, mas é a continuação da mesma graça. É denominada "cooperante" ou "concomitante", só por conta da concomitância da vontade humana, que a graça operante e preveniente aliciou da vontade do homem. Esta concomitância não é negada a quem a graça excitante é aplicada, a menos que o homem ofereça resistência à graça excitante”.[2]

Diferentemente do ideário calvinista, segundo Arminius, a graça de Deus é direcionada a humanidade, não se restringe ao seleto grupo dos eleitos, como ensina o apóstolo João: “Ele é propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também, pelos de todo o mundo. (1 João 2:2)

Apesar de a graça ser direcionada a todo o mundo, nem todos o homens se salvarão. Essa realidade evidencia, segundo a teologia arminiana, que a graça pode ser resistida, ou seja, ela não é irresistível como afirmam os calvinistas, e essa informação pode ser percebida nas Escrituras, na carta aos Hebreus, na seguinte exortação: “Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas. (Hb 2.1), continuada indagativamente: Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação ...? (Hb 2.3)

Tanto no sistema arminiano, como no wesleyano, a graça apresenta-se como manifestação benevolente de Deus, configurando-se como possibilidade de qualquer homem ser salvo, bastando, acolhê-la. Em seu estágio inicial, apresenta-se como preveniente, pois atua em favor a humanidade, antes de qualquer ação particular de qualquer homem, por isso, ela é preveniente. O homem conhece noções de moralidade, mesmo tentando silenciá-la, ele escuta o clamor da consciência, e com isso pode refletir sobre seus atos; isso ocorre por influência da graça, e esse resquício do bem que podemos perceber em qualquer criatura não envolvida integralmente pela graça, já testemunha a sua ação preveniente. Sobre isso, afirma Wesley: “Nenhum homem vivo está inteiramente destituído daquilo que é vulgarmente chamado consciência natural, embora esta não seja natural, e sim mais propriamente chamada graça salvadora”. [3] Portanto, a graça salvadora, ou prévia, demonstra a ação de Deus em favor de todo o homem. Se “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes” como afirma Tiago, em sua epístola,  não podemos negar que todo o homem, que, sabemos, alcança boas dádivas, inclusive a verdade, pois toda verdade reside em Deus, é alcançado, por certa medida da graça de Deus.

Defendendo assistência da graça em favor de todos os homens, continua Wesley:

Todos têm, mais cedo ou mais tarde, bons desejos embora a maioria deles os afugente antes que lancem raízes profundas ou produzam qualquer fruto considerável. Todos os homens têm um certo grau da luz que mais cedo ou mais tarde, mais ou menos, ilumina a todos que vêm ao mundo. E os homens, ao menos que pertençam ao pequeno grupo de consciência endurecida, sentem-se mais ou menos mal quando agem contra a luz da sua consciência. De maneira que nenhum homem peca porque não possua a graça, mas porque não faz uso da graça que possui.[4]

Além de ser defendido pela tradição cristã, o conceito de graça preveniente, pode ser percebido nas Escrituras. Entendendo com clareza a ideia implícita no termo graça preveniente, pode-se encontrar sua evidência em muitos textos bíblicos. Vamos a alguns exemplos:

Mas, pergunta agora às alimárias, e cada uma delas te ensinará; e às aves dos céus, e elas te farão saber; 
Ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes do mar te contarão.
Quem não entende, por todas estas coisas, que a mão do SENHOR fez isto?”  (Jó 12.7-9)

“E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam (...). 
Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. 
Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. 
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome;
Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. (João 1.5 -13)

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Jo. 3. 16)

“E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”. (Jo 12. 47)

“Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; (At 17:30)


“Pois do céu é revelada a ira de Deus contra toda a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça.
Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis(...)”.
(Rm 1.18 – 20)

 Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.
Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.
Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei;
Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;
No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho”. (Rm 2.12-16)

“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores(...)”. (Tm 1.15)
“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens(...),
Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, ”. (Tt. 2. 11, 12)

“Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes (...)”. (Tg 1. 7)

O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós;(1 Pe1.:20)

“Ele é propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também, pelos de todo o mundo. (1 João 2.2)

(o Cordeiro) que foi morto desde a fundação do mundo. (Ap13.:8)

Os versículos citados retratam a ação de Deus em direção a todos os homens, independentemente de sua prévia postura, ação  ou futura  resposta, ou de estarem inseridos em um grupo de eleitos. Revelam que a graça é uma doação de Deus, vivenciada em Cristo, antes da fundação do mundo. (Ap. 13. 8; 1Pe.1. 18-21). Refletindo sobre eles, podemos identificar, o que a teologia, com  Anselmo de Cantuária, Tomás de Aquino, Jacobus Arminus e John Wesley chama de graça preveniente -, uma manifestação benevolente e universal de Deus em favor do ser humano, que nem sempre se efetiva como salvação, porém, se apresenta como possibilidade de qualquer homem ser salvo, pelo fato de Cristo se apresentar como “a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem”;  de Deus ter amado o mundo (Jo 3.16); de saber que Cristo veio, “não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12. 47), “que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores(...)”. (Tm 1.15); e que Cristo é a propriciação, não somente pelo pecado dos eleitos, mas pelos pecados de todo mundo (1 João 2.2)”.

Com essa realidade em mente, podemos perceber, que o homem, mesmo preso no pecado pode se mover para o bem, porque conta com a assistência da graça, oferecida para salvar os pecadores. Essa percepção, corroborada pelas Escrituras, estabelece como legítimo, o conceito graça preveniente defendido pela teologia arminiana e wesleyana, tradicionalmente difundido pela teologia cristã.   

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Citações
[1] ARMINIUS, Jacobus. WORKS OF ARMINIUS VL 2. An Open Letter to Hippolytus a Collibus - 4. GRACE AND FREE WILL.
[2] Ibdem
[3] BURTNER, R.W. e CHILES, R.E., compiladores. Coletânea de Teologia de John Wesley. 2ed. Rio de Janeiro: Instituto Metodista Bennett, 1995. 2ed.
[4] Ibdem

Referências
ARMINIUS, Jacobus. WORKS OF ARMINIUS VL 2.
BURTNER, R.W. e CHILES, R.E., compiladores. Coletânea de Teologia de John Wesley. 2ed .Rio de Janeiro: Instituto Metodista Bennett, 1995.
L. GONZÁLEZ, Justo. Breve dicionário de teologia / Justo Gonzalez; tradução Silvana Perrella Brito. São Paulo: Hagnos, 2005
J. GRENZ, Stanley. Dicionário de Teologia. Stanley Grenz, David Guretzki e Cherit Fee Nordling; traduzido por Josué Ribeiro. 5 ed. São Paulo: Vida, 2005.
ANSELMO, da Cantuária. Livre-arbítrio e predestinação. Uma concordância entre presciência e graça divina. Sobre a concordância da presciência, da predestinação e da graça divina com o livre-arbítrio. Tradução de Daniel da Costa. São Paulo: Fonte editorial, 2006.  

sábado, 13 de outubro de 2012

O conceito de Brunner sobre a eleição não soa armínio-wesleyano?

O conceito de Brunner sobre a eleição não soa armínio-wesleyano?
(apontamento do Bispo Ildo Mello)

Ele diz:

É Seu livre propósito que coloca-nos pecadores, por meio da fé, na realidade do Filho do Seu Amor, como é Seu propósito enviar-nos Seu Filho, revelar-nos a nós e partilhar a Si mesmo conosco (...). Em si mesmo, o Filho significa Eleição. Onde o Filho está há eleição. Mas onde o Filho não está não há eleição. Mas o Filho só está presente onde há fé, por isso no Novo Testamento os eleitos e apenas eles são aqueles que crêem. Por esta causa só a fé é decisão na qual o prêmio é a salvação ou a ruína. Não é uma decisão falsa onde tudo já foi decidido de antemão. As conseqüências podem ser sérias, se a fim de escapar da doutrina da dupla predestinação tomarmos o caminho errado e acabarmos no Universalismo [1].

Alguém de fato lê na Bíblia como um todo, como também em Paulo, muito acerca daqueles a quem Deus rejeita ou rejeitou (por ex. Rm 11.15), mas nunca sobre aqueles aos quais Ele rejeitou desde a eternidade. Alguém encontra que Deus endurece os homens (Rm 9.18),mas nunca que Ele os predestinou desde a eternidade para a dureza do coração. Está escrito na Epístola aos Romanos que Deus tem o direito de fazer com sua criatura o que desejar – e se desejar, pode também fazer vasos de ira (Rm 9.22), mas não diz que Ele predestinou homens desde a eternidade para serem vasos de ira e os tenha criado como tais. Pelo contrário, é precisamente aqueles a quem Paulo descreve no nono capítulo como vasos de ira (9.22) de quem ele diz, no décimo primeiro capítulo que já estão salvos(11.23ss) (...) por um lado, ninguém se aproxima tão intimamente do pensamento de um “duplo decreto da predestinação, um para a salvação e outro para a perdição” como o nono capítulo da Epístola aos Romanos. Por outro lado, ninguém se aproxima mais da doutrina da salvação universal como o final do capítulo onze. (...). Se perguntarmos a razão disso, então estes são justamente os capítulos que nos fornecem uma resposta: apenas o fiel pode saber a respeito da eleição. A fé, porém, embora sendo dom de Deus é requerida de nossa parte. Nós também devemos crer (1 Co 16.13; Cl 2.7; Ef 6.16), A Palavra de Cristo está sendo proclamada em todas as nações, com a exigência da obediência (Rm 15.18). O que mais importa é a decisão da fé (Rm 11.20) [2].
______
[1] BRUNNER Emil. Dogmática I, p. 412.
[2] BRUNNER Emil. Romanos, p.257-258.

Fonte: http://escatologiacrista.blogspot.com.br/2012/10/uma-consideracao-sobre-doutrina-da.html
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sábado, 21 de julho de 2012

A dialética teológica e a teologia da inversão de valores

A DIALÉTICA TEOLÓGICA E A TEOLOGIA DA INVERSÃO DE VALORES

Introdução

No extenso percurso histórico, desde o início dos registros das manifestações humanas, vários movimentos culturais e intelectuais foram se transformando. Como havia ditado o grande filosofo sistemático Hegel, dialeticamente os movimentos foram se transformando como síntese do choque entre velhas e novas ideias. Ao longo da história puderam-se testemunhar mudanças no modo de vida social. Fazendo uma comparação investigativa, facilmente se observará que os contornos culturais de hoje são diversos, e na maioria dos casos, muito diferente do que os de outrora. Se a dialética traça os rumos arquitetados por Hegel, nem sempre a nova arquitetura é feita de novos elementos, pois no choque entre o velho e o novo, muita coisa dantes usadas, ou, muitos elementos e ideias até então dispensados podem novamente vir a tona. Portanto, a síntese entre tese e antítese, entre o velho e o novo, poderá, com novas formas e variações, reaproveitar muita coisa ou ideia, tida como antiquada.
A filosofia e a teologia não fogem desse movimento que observamos. Em muitas obras que versam sobre essas manifestações intelectuais leem-se registros das mudanças na ordem das ideias – mudanças essas, que vez por outra, reafirmam o que remotamente fora rejeitado. Detendo-se na Teologia, pode-se perceber sem muito esforço essa realidade dialética, e é sobre aspectos dessa realidade dialética na teologia que timidamente passaremos a abordar.

1. Aspectos de uma dialética teológica.

Comentar sobre aspectos de uma dialética teologia é ter a princípio um leque de possibilidades, coisa que por sua extensão, impossibilitaria nossa pretensão de desenvolver um simples e específico comentário. Por isso, para realizar nossa pretensão, a saber, de construir, não um exaustivo comentário, mas uma abordagem parcial e simples - buscamos desenvolver um comentário que, mesmo beirando o superficial, não se configure como supérfluo.
Tendo assumida a hipótese da dialética teológica, podemos apresentar superficialmente algumas manifestações que entendemos se configurar como matéria prima da perpetuação dessa dialética.

A Teologia Cristã tem nos Escritos Bíblicos a fonte de sua movimentação dialética, porém, apesar da fonte comum, os movimentos teológicos cristão são destoantes. Por exemplo, os evangelhos e os escritos do apóstolo Paulo que tem servido como inspiração para uma série de sistemas, direcionam os aderentes de cada sistema a conclusões opostas. Se voltarmos nossa atenção apenas para os sistemas soteriológicos perceberemos que essa hipótese ganha ainda mais força. Nessa investigação, apontamos para o fato de que as mesmas fontes e ideias usadas para legitimar um sistema, são usadas para legitimar outro destoante.
Na Soteriologia Católica, temos como fundamento os Pais da Igreja, principalmente a fonte agostiniana, que avançando, gera a vertente tomista – apresentando-se em outra forma, que por sua vez ganha outra curso no afluente molinista, continuando nos contemporâneos, em vários modos, a movimentar o curso dialético das ideias. Já a Soteriologia Protestante tem como fonte os já citados católicos, canalizados em Lutero e Calvino, que engendra o afluente Arminius que, por sua vez, gera o afluente Wesley e demais, em diversidade de conteúdos, interpretações e ênfases. Porém tanto na primeira como na segunda, o lençol de água é as Escrituras. É importante ressaltarmos que os sistemas que citamos não seguem uma ordem estrita, tal como apresentamos, ademais, a grande maioria de nomes ou sistemas foram omitidos, o que pretendemos em nossa apresentação, é apenas mostrar que existe uma dialética teológica.
Através de um grande número de sistemas várias ideias foram discutidas. Temas como: soberania de Deus, eleição e predestinação (absoluta e inflexível ou, restrita e flexível); conhecimento de Deus (positivo, sempre diretamente atuante, passivo ou impassivo; ou circunstancialmente atuante etc.); livre-arbítrio humano (como coisa irreal, ou, existente apenas antes da queda; enfraquecido depois da queda – mais, ainda existente; só possível com a intervenção da graça preveniente; etc.) foram dialeticamente ganhando novos contornos, passando de uma rigidez ideologia à flexibilidade, ou inversamente.

Como prevíamos nossa intenção nesse simples comentário não é tratar com profundidade os principais aspectos da dialética teológica, o que demandaria maior trabalho, e, por consequência, exigir-nos-ia mais tempo de dedicação, coisa que atualmente indispomos, além de fugir de nosso campo de intenções. Pretendemos abordar apenas um aspecto marginal dessa dialética.
Apesar de entender que quando se fala em dialética teológica o assunto predominante deva ser as construções e reformas propriamente teológicas, agarrar-nos-emos a outra questão, a saber, a inversão de valores - realizada com o intuito de manter firme algumas construções teológicas.

2. A teologia da inversão de valores e as mudanças de ênfases.

Se até agora nossa tarefa foi a de destacar que de tempos em tempos ocorreram várias transformações nas teorias teológicas, doravante, passaremos a destacar uma questão específica, ou seja, a inversão de valores, principalmente em relação aos valores morais e potenciais atribuídos a Deus, assumida por algumas vertentes teológicas – e em seus defensores, tendo como fim, como já apontamos, manter intacta a consistência e coerência teórica da vertente teológica que defendem.

2.1 O enfraquecimento de valores morais em prol da perpetuação de alguns sistemas teológicos.

Para se configurar como uma genuína Teologia Cristã, independentemente do caminhar dialético, algumas ideias devem ser assumidas como inamovíveis. Umas dessas ideias basilares se referem ao caráter reto, santo, justo e amoroso de Deus, fonte de todos os bons valores, de toda boa dádiva e de todo o dom perfeito
(Tg 1.17). Portando, cristãmente crer em Deus, entre outras coisas, é crer que nEle residem, sem sombra nem variação, esses valores ideais. Apesar de verbalizada e confessada por todas as teologias cristãs, na engenhosidade de suas teorias, a palavra verbalizada e assumida sobre os valores que nos referimos não encontra assentamento em alguns sistemas teológicos.
Percebe-se o afloramento do calvinismo no Brasil. O que dantes era uma teologia quase que confinada a redutos específicos, hoje, sua influência se estende até mesmo em ambientes que tinha no arminianismo o seu principal afluente teológico. Na Internet, além da divulgação produzida por já tradicionais figuras e veículos calvinistas, essa nova camada também ostenta ferozmente sua teologia recém-absorvida através de sites, blogs pessoais ou institucionais, como também, atacando páginas que divulgam outras teologias, principalmente a Teologia Arminiana.
Independentemente do grau de profundidade que esses seminovatos calvinistas têm em relação à teologia que abraçaram, ou de outra teologia contrária que ferozmente atacam, percebe-se em suas posturas uma ousadia que por pouco alcança as raias do delírio, reforçando práticas de figuras já institucionalmente situadas e estabelecidas. Na ânsia de proteger a pseudológica de seu sistema teológico, não se constrangem a diminuir o que é de mais valorado nas Escrituras, a saber, o caráter reto, santo e justo de Deus, passando a construir, ou mesmo, perpetuar com mais explicitude, a teologia de inversão de valores.
O que vem a ser a teologia da inversão de valores? - Não é outra coisa, que uma teologia que diminui a importância dos valores morais, com o fim de supervalorizar o poder, por eles titulado como, soberania. É uma teologia que muda a ênfase das Escrituras, do amor, caráter, santidade, e justiça para o poder ou soberania. Na tentativa de garantir uma sobriedade teológica - até mesmo à ênfase evangélica do Novo tentamento é manipulada. Enquanto que a Bíblia registra a preocupação de Cristo em favorecer a humanidade, através de um tão grande amor por todos, que o levou a uma morte vil, os inversores, procuram direcionar esse favor gracioso Deus em prol da humanidade, diminuindo a extensão de sua doação benévola - apenas a um grupo ao qual chamam de eleitos. Se, se afirmava que o preço que pagou Cristo foi o caríssimo preço do pecado do mundo inteiro, a teologia da inversão de valores, apresentando a expiação de Cristo como preparada só para o grupo dos eleitos, com isso torna menor a extensão do sacrifício de Cristo do que é apresentado pelas Escrituras. Vejamos como as Escrituras nos apresenta a extensão do sacrifício e favor de Cristo:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (João 3. 16, 17)

“Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá a vida” (Rm 5.18.)

“Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia.” (Rm 1.32)

“Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo todos morreram.” (2Co 5.14) .

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens... (Tt 2.11)

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. (1 João 2. 2).

É muito claro nas Escrituras que o sacrifício e favor de Cristo e de extensão Universal, porém, os inversores diminuem consideravelmente essa dimensão.
Se a ênfase evangélica através da teologia de inversão de valores ganha novos realces, a moralidade também. Nesses contornos teológicos algumas expressões axiológicas passam a ser tratadas como quimeras.
Quando falamos na integridade de Deus, apontando que o homem, com o seu livre-arbítrio é realmente culpado por seu pecado -, assumindo o ousado sistema teológico inversivo, toda a retidão de Deus, apresentado nas escrituras como julgador de cada um segundo as suas obras, é desprezada, pois implicitamente ou em casos até explicitamente, afirmam que próprio Deus impediu que esses homens fizessem o bem. Deus já havia, indicam, escolhido positivamente os que seriam salvos e os que seriam condenados. Sobre esse pressuposto, Jacobus Arminius já advertia que afirmar que Deus estabeleceu positivamente os atos dos réprobos, é torná-lo autor do pecado:

“Embora o pecado não possa ser cometido por ninguém exceto por uma criação racional, e, por isso, deixa de ser um pecado, por esta mesma circunstância, se sua causa for atribuída a Deus; no entanto, parece possível, por quatro argumentos, fixar essa acusação sobre o nossos teólogos. ’Segue-se de sua doutrina de que Deus é o autor do pecado’". (Jacobus Arminius. Works of Arminius VlI).
John Wesley problematiza a questão da incoerência em julgar alguém incapaz de fazer o que fez.

“Se o homem é capaz de escolher entre o bem e o mal, ele se torna um objeto próprio da justiça de Deus que o absolve ou o condena, que o recompensa ou pune. Mas se ele não é, não se torna objeto daquela. Uma simples máquina não capaz de ser absolvida nem condenada.” E continua, “(...)A justiça não pode punir uma pedra por cair ao chão, nem, no nosso plano, um homem por cair no pecado, ele não pode senti-la mais do que a pedra, se ele está, de antemão, condenado... Será este homem sentenciado a ir para o fogo eterno preparado para o diabo e os seus anjos por não fazer o que ele nunca foi capaz de evitar?”

Defender que positivamente Deus estabeleceu os réprobos, é de alguma forma, além de torná-lo autor do pecado, apontar um traço de injustiça e de não retidão no caráter de Deus. Com muita propriedade o Rev. Amos Binney afirma: “Se o castigo é justo, é porque o castigado podia ter obrado de outro modo.” Portanto, segue-se que se o castigado não poderia ter obrado de outro modo, o castigo é injusto e injusto é o castigador.
Invertendo os valores tão zelosamente defendidos nas Escrituras, a teologia da inversão de valores, abandona a defesa do caráter reto de Deus, colocando nele um caráter obscuro – que faz dele, um julgador que não leva em consideração nenhuma ação humana, e pior ainda, que faz com que a maioria dos homens seja intrinsecamente impedida de desejar qualquer bem, qualquer salvação, oferecendo caprichosamente seu favor apenas a um grupo, tão pecador quanto o reprovado, independentemente de qualquer resposta humana. Ou seja, prática da acepção de pessoas que as Escrituras afirmam não existir em Deus, a teologia da inversão de valores assume como natural ação de um Deus soberano.
Defendendo, também, que algumas práticas pecaminosas foram incitadas por Deus independentemente do caráter já corrupto de alguns homens, a teologia da inversão de valores faz de Deus um corruptor de homens, coisa explicitamente rejeitada nas Escrituras, principalmente como lemos na clara assertiva de Tiago: Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. (Tg 1.13).
Se apropriando de textos de linguagem antropomórficas, os famigerados reversores teológicos fazem de Deus um ser imoral, que além de tentar alguém a práticas pecaminosas, o pune. É muito clara à percepção de quem se envolve em controvérsias soteriológias com defensores da teologia da inversão de valores o desprezo pelos conceitos morais que a Bíblia ciosa da reputação divina apresenta como traços do caráter divino. Diante dessa questão, a resposta a algumas indagações se fazem pertinentes, a saber:

Qual é a grande ênfase das Escrituras, o amor e a justiça de Deus, associada ao seu reto caráter -, ou uma soberania que julga a cada um de acordo com obras estabelecidas pelo próprio soberano?

O que as Escrituras mais explicitamente falam sobre Deus, sobre o seu amor pelo mundo, sua santidade, sua retidão e integridade, sua JUSTIÇA, - ou sobre sua soberania absoluta que impede intrinsecamente a possibilidade de salvação a muitos, ao passo, que intrinsecamente tem garantida a salvação a alguns, independente de suas ações?

O que mais as Escrituras exortam, a prática do autoexame, a necessidade de vigilância por conta da possibilidade do naufrágio da fé e para não receber em vão a graça de Deus, a necessidade do arrependimento -, ou o conforto de um grupo estabelecido de eleitos por conta da impossibilidade de que caiam da fé?

Conclusão.

Nessas poucas linhas, fizemos alguns apontamentos direcionados a praticas de defensores de uma vertente, que na ânsia de garantir seu principal pressuposto teológico, a saber, a soberania absoluta de Deus, cometem excessos que terminam por descaracterizar o Ente que visa defender. Apontamos para o problema vivenciado pelos defensores, por nós chamados, da teologia da inversão de valores, destacando que alguns valores que são colocados em alta estima nas Escrituras, por destacar a santidade de Deus -, na vertente teológica inversora, e nas mentes que assumem essa inversão, são relegados, na ânsia de valorizarem uma pretensa soberania absoluta, em detrimento a ética bíblica que direciona a Deus valores morais que não se harmonizam com o modelo de soberania absoluta que defendem.
É certo que a soberania divina é um fato bíblico. É certo também, em acordo com essa soberania, que nada ocorre sem a Divina Providência, até mesmo o livre-arbítrio do homem é manifestação da providência de Deus. Como também, é certo que não podemos omitir em qualquer manifestação intelectual essa realidade, e isso, implicitamente nos faz defender que a ocorrência de tudo está ligada a essa soberania e providência de Deus. Porém, o que não pode ser defendido, sob pena de apresentar Deus como um ser imoral, injusto e odioso, é inferir que essa soberania e providência de Deus que possibilita a ocorrência de todas as coisas, é a feitora positiva, intencional de todos os males do mundo, incluindo o pecado particular de cada ser, como inferem muitos calvinistas aqui tratados como inversores.
Teologizar sem reparar os caminhos que nossas inferências estão a nos levar é correr o risco de fazer teologia irresponsável e agressiva e de defender ideias e práticas contrárias aos atributos e valores que a Bíblica direciona para Deus.

Lailson Castanha
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Referências bibliográficas.

AGOSTINHO, Santo. O Livre-arbítrio. 2ed. São Paulo: Paulus, 1997.
ARMINIUS, Jacobus. Works of Arminius VlI.PDF
BINNEY, Amos. Compendio de Teologia. Campinas: Editora Nazarena.
LANE, Tony. Pensamento Cristão (Volume I); traduzido por Elizeu Pereira. 4ed. São Paulo: Abba Press, 2007.
LANE, Tony. Pensamento Cristão (Volume II); traduzido por Elizeu Pereira. 4ed. São Paulo: Abba Press, 2007.
OLSON, Roger. A história da Teologia Cristã – 2000 anos de tradição e reformas; tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2001.
BURTNER, R.W. e CHILES, R.E., compiladores. Coletânea de Teologia de John Wesley; 2ed. Rio de Janeiro: Instituto Metodista Bennett, 1995.


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Como Jacobus Arminius acredito que: "As Escrituras são a regra de toda a verdade divina, de si, em si, e por si mesmas.[...] Nenhum escrito composto por Homens, seja um, alguns ou muitos indivìduos à exceção das Sagradas Escrituras[...] está isento de um exame a ser instituído pelas Escrituras. É tirania, papismo, controlar a mente dos homens com escritos humanos e impedir que sejam legitimamente examinados, seja qual for o pretexto adotado para a tal conduta tirânica." (Jacobus Arminius) - Contato: lailsoncastanha@yahoo.com.br

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